sexta-feira, 11 de maio de 2012

TERRAÇO



A bunda dela na borda da sacada. Lá embaixo, faróis vermelhos correndo e buzinando, postes de luz, risadas ébrias. A noite festeja, enrolada pelo vento do outono. As pessoas caindo nos truques que a noite inventa. Botas pesadas surrando bitucas de cigarro e chiclete. O barulho não alcança os dois. A bunda dela gelando dentro do jeans. O jeans esfregando sujeira. Ele e uma cerveja na mão. O que é cumplicidade, se não for isso? Dá pra falar com o silêncio e mais um gole de Heineken. Dá pra falar com os olhos voltados lá pra baixo, quase iluminando o movimento das ruas. Ela cospe para ver se a saliva seca antes de atingir a cabeça de alguém. Impossível descobrir. Ele dá mais um gole. O que precisa ser dito nunca será. Ficará nesse instante. Impresso numa lacuna de tempo. Talvez nunca mais se lembrem dessa noite e do medo que ronda. Ela olha pra a Heineken. Ela gruda o sapato no chão. Ela desiste.

sábado, 14 de abril de 2012

MÚSICA ÚMIDA

Das vezes que chorei por causa de uma música, a tarde mais marcante foi aquela de Lins. O calor que fazia debaixo do céu e o sorveteiro aliviando. Ver televisão na frente do ventilador, pra não grudar no sofá de couro, ainda perturbada pela história da zonhecida, que encontramos no centro da cidade e descrevia como o seu marido tinha cegado, porque chegou perto demais das hélices do ventilador. Eu pensei que ele chorava e, com vergonha de que a mulher descobrisse, ao secar suas lágrimas com o vento artificial, que deixa a voz vibrando, se aproximou do ventilador mais do que o preciso.

Nas férias, eu visitava os avós no interior. Toda a família visitava. Nós, os sobrinhos, dormíamos no quarto desocupado por camas, mas que tinha sofá e vitrola. A gente se amontoava em colchonetes fininhos e almofadas duras serviam de travesseiro. A tia Dina dormia com a gente como se fosse bedel e me ensinou uma oração que sei até hoje. Quando a luz se apagava, a única coisa que não se escondia no breu era um vagalume vermelho perto da tia, que depois de sete minutos sempre morria, levando com ele o cheiro esquisito de fumaça. Nesse quarto, naquela tarde, foi para onde escapei, deixando minha família na sala. Sempre fui de me trancar, é quando as confusões primeiro escorrem, pra depois se assentarem.

Eu sou da época dos discos. O primeiro que ganhei foi o de uma banda nacional de garotinhos, dessas que apareciam na televisão para cantar e tocar com os instrumentos sem fio. Embaixo da vitrola, uns discos que nem me lembro mais, com exceção desse que escolhi. A música se apresentava na última faixa do lado B e eu me levantava do sofá, grudento e salgado, sempre que acabava, para repetir. Falava sobre querer alguém que foi embora e não voltaria mais. Era só uma música. Eu só tinha seis anos, o que eu sabia de amor? Eu só tinha seis anos e, naquele dia, aprendi da vida. Foi só um grão. A música me contou como as histórias poderiam ser. Como eu poderia escolher me sentir. Só porque alguém se sentou e escreveu, em vez de usar um ventilador pra disfarçar sua tristeza.

segunda-feira, 26 de março de 2012

MANHÃS ABSTINENTES

a madrugada é triste. a madrugada é sempre triste quando você dorme. ou quando escolhe outro lugar, diferente do meu pescoço. se não existe a sua voz alagando a madrugada, ela não ganha um bafinho de cor. quando o seu sorriso é estrangulado, pra que serve o foco da lua?

de dentro do carro eu posso escutar você interpretando em todos os tons aquela palavra que raramente fala. e desconfiar de você a cada vulto que atravessa debaixo do semáforo, espionado pelos faróis. às vezes tenho vontade de te atropelar. me entristecer pela sua morte e não pela sua ausência.

eu abandono a madrugada, quando cinco horas de álcool decidem destrancar o que os dias claros e quentinhos reprimem. o que a distância tranca. as facas que tiro do peito. quando é manhã eu nunca lembro que você já fez parte.

Larguei as madrugadas pra você desaparecer. Consegui evitá-las, até que. Até que essa crise. Uma crise, um impulso, um chame-do-que-quiser. é tipo fissura de me esgotar nelas como antes. ou me esgotar em você. não sei qual desejo amanhece primeiro. parece que me estampo nessa  história, quando fica insuportável me evitar. por isso arremessei nossas madrugadas, migalhas de alegria. presas à uma pedra, talvez sufocadas de água e de minha invisibilidade, sua incontestável criação.

é inquieto. é surdo. eu meto a lembrança de como é a tua pele junto tênis e sabonete. é incontrolável e curto o momento em que penso em você pela primeira vez depois de, e o momento até a porta da sua casa. é quase sonho. é quase porre. é quase um coma. é quase morte. a minha.

eu, piscando. cada poro. minhas palavras em alto-falantes. estardalhaços do que vaza. e você.

cego eterno.